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Amor de Contradição

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Amor de Contradição

Jogralhos ⠿ 08-06-2026 15:00

Os Jogralhos reinterpretaram o universo camiliano à luz das relações, contradições e linguagens do presente, cruzando humor, sátira e crítica social. Entre referências a Amor de Perdição, humor geracional e crítica contemporânea, o texto “Amor de Contradição” revisita o universo camiliano através da linguagem performativa e satírica que caracteriza o grupo cultural da Universidade do Minho.

A forte ligação de Camilo Castelo Branco a Vila Nova de Famalicão continua a inspirar novas leituras e interpretações da sua obra. Partindo desse legado literário, os Jogralhos aceitaram o desafio do UMdicas de imaginar como seria o escritor no século XXI — num tempo marcado pelas redes sociais, relações digitais e novas formas de comunicar.

POEMA

Ah, Camilo Castelo Branco

de Famalicão natural

como seriam as suas histórias

se acontecessem no tempo atual?

 

É que o romance está morto

abandonou-nos o cupido

antes o amor era de perdição

agora o amor está perdido

 

O que cá corre hoje em dia

não é como em mil e oitocentos

emoções a sério? nem pensar!

agora é pseudo-relacionamentos

 

Simão matou-se por Teresa

como prova de amor verdadeiro

hoje em dia, se a aturasse

fechava-se ele no mosteiro

 

O amor era muito lindo

falava-se sobre filhos e o amanhã

mas será que a história era a mesma

se se conhecessem atrás do ecrã?

 

E mesmo por essas andanças

nada de mostrar afeto…

mandar mensagem sem ela pôr stories?

nãããããããão, fica quieto…

 

Mas Teresa sempre temeu

se simão na prisão morreria

se fosse hoje pensava que levou ghost

quando ele só ficou sem bateria

 

Antes estavam todos tão longe

agora é afastamento voluntário

um romance de apps tornou-se banal

fomos de cartas para um tarifário

 

E mesmo estando tão perto

combinar coisas ainda dá confusão

duas pessoas podem morar na mesma rua

mas só se verem no S. João

 

No passado era difícil comunicar

porque ainda não tinham os meios

no presente continua assim

porque andam todos com rodeios

 

Nos tempos de camilo eram mais diretos

partilhava-se a felicidade e a dor

agora isso é muito trabalho

partilham-se vídeos de duvidoso humor

 

Nos tempos de agora, por outro lado

teresa diria que era para casar

enquanto andava nas costas de Simão

envolvida com o Baltazar

 

A arte da escrita desapareceu

para onde foi a palavra gentil?

não quero ouvir o Simão convidar

a Teresa para netflix and chill

 

Ai, Camilo Castelo Branco

verdadeiro mestre da caneta

se o livro saísse hoje em dia

era cópia de Romeu e Julieta

 

Mas nem tudo é mau, caros leitores

eu cá prefiro viver na falsidade

do que vangloriar uma época

onde casavam com menores de idade

 

Como é bom poder viver

neste mundo mais avançado

poder amar quem se quiser

sem se ser apedrejado

 

Agora temos essa liberdade

porque assim deus o quis

termos a simples regalia

de fazer um outro feliz

 

O protagonista não teve tal sorte

do seu amor foi sempre privado

damos graças ao nosso Camilo

pela história nos ter contado

 

Simão fez de tudo

para Teresa poder amar

contra sua família foi

para juntos poderem ficar

 

Mas se fosse hoje em dia

as coisas não seriam assim

Simão teria medo de compromisso

e a história ficaria sem fim

 

Ninguém conseguiria adivinhar

o rumo desta relação

seria amor verdadeiro

ou amor de contradição?

 

SOBRE OS JOGRALHOS

Os Jogralhos (Grupo de Jograis Universitários do Minho) são o icónico grupo de sátira e comédia da UMinho. São conhecidos na academia minhota pelos seus espetáculos e sketches repletos de ironia e sarcasmo. Com criatividade e irreverência, dão voz a temas do presente e mantêm viva a arte de dizer - e pensar - o que importa.

Identidade dos “Amarelos”

Lema: “Bater a bem sem olhar a quem”.

Missão: Autointitulam-se a “consciência femural” (fé e moral) da academia e do país, corrigindo e satirizando problemas fulcrais, desde a política ao futebol e vida académica.

Estilo: Ficam célebres pela sua capacidade de improviso e humor “seco”, atuando frequentemente em festivais e eventos académicos.

 

CAMILO E FAMALICÃO

Camilo Castelo Branco viveu grande parte da sua vida em São Miguel de Seide, em Vila Nova de Famalicão.

A Casa de Camilo, onde o escritor residiu, é hoje um espaço museológico e cultural de referência. Autor de obras como Amor de Perdição e A Queda de um Anjo, é uma das figuras maiores da literatura portuguesa do século XIX.

Atualizado a 08-06-2026 15:00