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Da regra à cultura: UMinho debateu como reforçar a integridade académica

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Da regra à cultura: UMinho debateu como reforçar a integridade académica

Ana Marques ⠿ 08-10-2026 14:00

11.º Fórum Ética juntou comunidade académica para refletir sobre responsabilidade, prevenção e novos desafios, com a inteligência artificial em destaque

A Universidade do Minho realizou ontem, dia 7 de outubro, a 11.ª edição do Fórum Ética, dedicada ao tema “Integridade académica: conduta, prevenção e consequências”. A iniciativa reuniu dezenas de participantes no campus de Gualtar, em Braga, para refletir sobre os valores, princípios e desafios que atravessam a vida académica e científica, com particular atenção à prevenção e ao impacto das novas tecnologias, nomeadamente da inteligência artificial.

Na abertura, o reitor da UMinho, Pedro Arezes, defendeu que uma Universidade íntegra não se constrói apenas através de regras, códigos e procedimentos. “Uma universidade não se torna íntegra apenas porque dispõe de bons equipamentos, de bons normativos. A integridade revela-se na forma como aplicamos na realidade essas regras”, afirmou.

Para o reitor, a ética manifesta-se nas decisões do quotidiano académico — “como avaliamos um estudante, como orientamos uma investigação, como desenhamos um projeto, como assinamos um trabalho, como reconhecemos o contributo de outra pessoa ou como enfrentamos simplesmente uma decisão difícil”. Nesse sentido, considerou fundamental construir um ambiente académico assente não apenas no cumprimento das regras por receio das consequências, mas na compreensão do seu sentido e na confiança enquanto “condição essencial da vida académica”.

Pedro Arezes salientou ainda que a responsabilidade pela integridade começa em cada pessoa, mas envolve também a instituição, que deve assegurar procedimentos claros, tratamento equitativo e espaço para que questões e dúvidas de natureza ética possam ser colocadas e discutidas.

“Regular, prevenir e promover”

Na intervenção que abriu o painel “Entre a Regulação e a Cultura de Integridade — O papel das estruturas de Ética da Universidade do Minho”, a presidente do Conselho de Ética da UMinho (CEUM), Cecília Leão, aprofundou a relação entre responsabilidade individual e institucional e o papel desempenhado pelo Conselho e pelas suas Comissões de Ética para a Investigação.

“A integridade académica é simultaneamente uma responsabilidade individual, mas é também uma responsabilidade institucional”, afirmou, defendendo que cabe à Universidade criar condições para que cada membro da comunidade possa tomar decisões responsáveis e agir de acordo com princípios claros.

Para Cecília Leão, as estruturas de ética não devem funcionar apenas como mecanismos de resposta a situações problemáticas, assumindo também uma função pedagógica de prevenção, aconselhamento e reflexão. “Não são apenas estruturas de apreciação. São também estruturas de reflexão. Não são apenas estruturas de resposta. São também estruturas de prevenção”, sintetizou.

A presidente do CEUM identificou três dimensões fundamentais da atuação destas estruturas: regular, prevenir e promover. A regulação passa pela existência de princípios, códigos, recomendações e procedimentos claros; a prevenção implica antecipar riscos e criar espaços para discutir dúvidas e dilemas; e a promoção corresponde à construção de uma verdadeira cultura de integridade.

Uma cultura que ultrapassa a mera conformidade: “As pessoas cumprem regras porque têm de cumprir. É importante, mas não é suficiente”, afirmou, defendendo que a comunidade deve compreender o sentido das regras e dos princípios que orientam a sua ação.

Inteligência Artificial acrescenta novas questões

A utilização crescente da inteligência artificial foi outro dos desafios destacados pelo Reitor, que considerou que a discussão já ultrapassou a questão de saber simplesmente se estudantes, docentes ou investigadores podem recorrer a estas ferramentas.

“Na realidade, a pergunta fundamental pode ser outra: quem é o responsável pelo resultado que nós apresentamos?”, questionou. A utilização de IA levanta questões relacionadas com a autoria, a verificação da informação, os processos de avaliação, a proteção de dados e os enviesamentos.

“Não podemos delegar a responsabilidade numa máquina ou num computador”, afirmou, defendendo que a Universidade deve preparar os estudantes para um contexto em que a IA estará cada vez mais presente, mas também para questionar os resultados que produz.

“Uma resposta rápida não é necessariamente uma boa resposta. Uma informação plausível não é necessariamente verdadeira. E um texto bem escrito não é necessariamente um trabalho intelectual responsável”, acrescentou.

Para Pedro Arezes, a transformação tecnológica poderá obrigar a repensar práticas no ensino e na investigação, mas não altera a necessidade de uma cultura académica baseada na integridade. “Continuamos a precisar de saber quem fez e o que fez. Continuamos a precisar de distinguir conhecimento de opinião. Continuamos a precisar de reconhecer o trabalho dos outros”, afirmou.

Conselho de Ética como espaço de reflexão

Cecília Leão destacou ainda o percurso de mais de uma década do Fórum Ética, iniciado em 2011 pela então Comissão de Ética da Universidade e posteriormente assumido pelo Conselho de Ética, criado estatutariamente em 2017.

O Conselho integra membros internos e externos, de diferentes áreas do saber, e conta atualmente com três Comissões de Ética para a Investigação: Ciências da Vida e Saúde, Ciências Sociais e Humanas e Ciências do Ambiente. A presidente do CEUM sublinhou o carácter pioneiro da UMinho na criação destas estruturas especializadas, que apoiam investigadores e projetos, contribuindo para antecipar riscos e refletir sobre questões como a recolha e proteção de dados ou o anonimato.

“Não é apenas dizer se está certo ou está errado”, explicou Cecília Leão. O objetivo passa por “ajudar a comunidade a pensar e a refletir”, sobretudo perante situações complexas ou novas, em que nem sempre existe uma resposta evidente.

Mais de uma década de debate ético

O programa da 11.ª edição incluiu, durante a manhã, um workshop baseado em casos reais e, durante a tarde, a apresentação da Plataforma Digital de Apreciação Ética de Projetos de I&D, pelo professor Pedro Albuquerque.

Seguiu-se uma mesa-redonda com diferentes perspetivas sobre a integridade académica, reunindo os membros externos do CEUM Jorge Soares, Lucília Nunes e Helena Freitas e, do lado interno, o Provedor Institucional, João Álvaro Carvalho, a Provedora do Estudante, Rosa Vasconcelos, a diretora do Gabinete de Assessoria Jurídica, Susana Carvalho Almeida, e o presidente da Associação Académica da Universidade do Minho (AAUMinho), Luís Guedes.

O encontro incluiu ainda momentos de participação da audiência e intervenções dos professores Manuel Gama, na área da filosofia, José Manuel Mendes, na poesia, e Luís Pipa, ao piano.

Ao assinalar a 11.ª edição, o Fórum Ética reafirmou-se como espaço de reflexão coletiva sobre os dilemas que acompanham a vida universitária, colocando no centro a construção de uma cultura institucional em que ética, integridade e responsabilidade façam parte das decisões e práticas quotidianas da Universidade.

Atualizado a 08-10-2026 14:00