Da Universidade do Minho à liderança de Vila Nova de Famalicão
Ana Marques ⠿ 29-05-2026 12:00
Antigo estudante e docente da Universidade do Minho, Mário Passos olha para o percurso académico como uma experiência determinante na sua vida pessoal e profissional. Nesta entrevista ao UMdicas, o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão destaca o papel da academia no desenvolvimento do território, a importância da ligação entre conhecimento e comunidade e os desafios que se colocam às novas gerações.
1. O que o levou a escolher a Universidade do Minho para estudar?
Mário Passos: Escolhi a Universidade do Minho pelo curso que queria efetivamente seguir, o de Física e Química, e por ser uma instituição jovem e dinâmica, com uma forte reputação na área das Ciências. Na altura, sentia-se já um ambiente muito próximo dos estudantes. Além disso, estudar relativamente perto de casa também teve peso na decisão. As deslocações eram feitas de transporte público, o que me permitiu conciliar a ambição académica com alguma proximidade de casa, da família e dos amigos.
2. Lembra-se do primeiro dia de aulas? Que expectativas tinha nessa altura?
Mário Passos: Lembro-me bem do primeiro dia. Havia o entusiasmo natural de quem acaba de chegar. Era uma mudança significativa, uma oportunidade e, para mim, também uma responsabilidade no começo de um percurso académico de grau superior. Havia também aquele nervosismo de quem entra numa nova fase da vida. Tinha a expectativa de encontrar um ensino exigente, professores inspiradores e colegas com a mesma curiosidade pelo conhecimento.
3. Era mais aluno de biblioteca ou de deixar o estudo para a véspera dos exames?
Mário Passos: O curso de Física e Química exigia disciplina e continuidade no estudo. Claro que havia momentos de maior pressão perto das frequências e dos exames, como acontece com qualquer estudante, mas percebi cedo que o segredo estava na consistência e no trabalho diário. Não era um aluno de biblioteca, mas encarei sempre o percurso académico com a responsabilidade que a exigência impunha.
4. Participava na vida académica para além das aulas?
Mário Passos: Diria que fui um aluno envolvido e participativo na vida académica. Como qualquer jovem não perdia o convívio entre colegas e as atividades associativas que acabaram por ser fundamentais para fomentar o espírito de entreajuda, desenvolver sentido crítico e construir amizades que ainda hoje permanecem.
5. Qual foi a experiência ou momento, enquanto estudante, que mais o marcou?
Mário Passos: São vários os momentos que marcam o percurso de um jovem estudante, mas talvez o mais importante tenha sido perceber que a universidade nos transforma muito para além da dimensão académica. O contacto com diferentes pessoas, ideias e desafios ajudou-me a crescer enquanto cidadão e pessoa.
6. Acredita que o que se aprende fora da sala de aula é tão ou mais importante do que o conteúdo curricular?
Mário Passos: Sem dúvida.
"Muitas das competências mais importantes
aprendem-se fora da sala de aula."
O conhecimento técnico é essencial, mas hoje as competências sociais e humanas fazem toda a diferença.
7. Que competências sente que a Universidade do Minho lhe deu e que ainda hoje utiliza?
Mário Passos: A universidade deu-me capacidade de análise, pensamento crítico e método de trabalho. A formação em Física obriga-nos a olhar para os problemas com rigor e racionalidade. Ainda hoje utilizo muito essa capacidade de estruturar decisões, analisar dados e procurar soluções sustentadas, quer na vida pública, quer na gestão autárquica. E deixe-me dizer-lhe que a física e a política têm muito mais em comum do que à primeira vista parece. Ambas procuram a fórmula certa, mas é sempre na persistência, na dedicação e no trabalho que encontram a sua chave.
8. Se voltasse atrás, que conselho daria ao seu “eu” estudante?
Mário Passos: Diria para aproveitar ainda mais o tempo universitário. Às vezes, enquanto estudantes, estamos demasiado focados no imediato e não percebemos como aqueles anos passam tão depressa.
9. Como aconteceu o seu regresso à Universidade do Minho enquanto professor e o que o motivou?
Mário Passos: Enquanto estudante, tinha sido já convidado para ser monitor no departamento de Física. A docência veio depois de uma forma muito natural, fruto do bom desempenho e também da ligação que fui mantendo com o meio académico. Foi um privilégio contribuir para a formação das novas gerações e devolver à universidade parte daquilo que ela me deu enquanto estudante.
10. Como descreve a relação que manteve com os seus estudantes?
Mário Passos: Sempre procurei manter uma relação próxima e de respeito mútuo com os estudantes. Acredito que um professor não deve ser apenas alguém que transmite conhecimento, mas também alguém que orienta, desafia e inspira.
11. O que aprendeu com os seus estudantes ao longo da sua experiência como docente?
Mário Passos: Aprendi muito com eles, sobretudo a importância de acompanhar a evolução das novas gerações. Os jovens trazem novas perspetivas, novas formas de pensar e uma enorme capacidade de adaptação às mudanças. As questões que nos colocam, o ir além da matéria dada, o pensamento crítico e a sede de saber também nos desafiam enquanto docentes. Retenho isso desse percurso.
12. Mantém contacto com a Universidade do Minho ou com antigos colegas e professores?
Mário Passos: Sim. Hoje, o contacto com a Universidade do Minho decorre essencialmente das funções que desempenho enquanto autarca e da relação institucional que o Município de Famalicão mantém com a UM. Mas a vida universitária cria redes humanas que permanecem ao longo da vida e mantenho também ligação com alguns colegas e professores.
13. Que papel tem hoje a Universidade do Minho no desenvolvimento económico, social e cultural do território?
Mário Passos:
"A Universidade do Minho teve,
tem e continuará a ter um papel absolutamente central no desenvolvimento económico,
social e cultural da região."
É um motor de conhecimento, inovação e qualificação, com impacto direto nas empresas, nas instituições e na capacidade de atrair talento para o território.
Isso está bem patente também em Vila Nova de Famalicão. A relação de estreita cooperação que tem mantido com o Município e com as diversas entidades do concelho está bem refletida no desenvolvimento do nosso território e no concelho que somos hoje.
14. De que forma a sua experiência académica e docente influência a sua visão enquanto autarca?
Mário Passos: Influencia muito. A experiência académica ensinou-me a valorizar o conhecimento, o planeamento e a decisão baseada em evidência. Já a experiência docente reforçou a importância da proximidade, da comunicação e da capacidade de ouvir. Tudo isso é fundamental no exercício das minhas funções autárquicas.
15. Que importância atribui ao contributo dos estudantes e antigos estudantes da Universidade do Minho no dinamismo de Vila Nova de Famalicão?
Mário Passos: Ao longo dos seus mais de 50 anos de existência, a Universidade do Minho contribuiu para a formação altamente especializada de milhares de famalicenses. O contributo dos estudantes e antigos estudantes da universidade é enorme para Vila Nova de Famalicão. Como lhe falei há pouco, muitos trazem inovação, empreendedorismo e capacidade técnica às empresas e instituições do concelho, ajudando a tornar o território mais competitivo e mais atrativo.
16. Há espaço para reforçar ainda mais a ligação entre a Universidade do Minho, os seus estudantes e o tecido empresarial do concelho?
Mário Passos: Há espaço e há vontade de reforçar essa ligação. A colaboração entre a academia e o tecido empresarial é decisiva para criar oportunidades, promover investigação aplicada e fixar talento na região. Quanto mais próxima for essa relação, maior será o benefício para todos. Enquanto município, queremos também reforçar essa ligação. Hoje temos no Famalicão IN HUB, em Vale S. Cosme, mais de uma dezena de laboratórios de investigação e inovação ligados à Universidade do Minho, que se reflete em cerca de 100 investigadores, na transferência de conhecimento e em investigação aplicada. É uma presença muito forte, muito importante, que queremos certamente reforçar no futuro!
17. Que competências vão ser mais determinantes para os jovens nos próximos anos?
Mário Passos: Curioso que recentemente fizemos um diagnóstico junto de mais de uma centena de empresas do concelho para aferir as suas necessidades de recrutamento e quais as competências que buscam. Percebemos, desde logo, que a larga maioria destas empresas prevê continuar a contratar nos próximos cinco anos. E também percebemos que há competências que são comuns a todas as empresas e que serão determinantes: a capacidade de adaptação, o pensamento crítico, a literacia digital, a criatividade e o trabalho colaborativo. Vivemos num mundo em constante mudança e os jovens precisarão, não apenas de conhecimento técnico, mas também de flexibilidade, ética e capacidade de aprendizagem contínua.
Atualizado a 02-06-2026 10:00
