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Entrevista a Alexandre Ferreira da Silva, codiretor do MIT Portugal

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Entrevista a Alexandre Ferreira da Silva, codiretor do MIT Portugal

Ana Marques ⠿ 05-01-2026 17:00

Alexandre Ferreira da Silva é o novo codiretor do Programa MIT Portugal. O professor da UMinho vai coordenar, juntamente com João Pedro Barreto, da Universidade de Coimbra, o Programa nos próximos cinco anos. Alexandre Ferreira da Silva foi coordenador executivo do MIT Portugal em 2018-21 e liderou o projeto “Prometheus”, do Programa CMU Portugal, que lançou o primeiro PocketQube português e o primeiro satélite da UMinho no espaço. É professor do Departamento de Eletrónica Industrial da UMinho, instrutor convidado da Universidade Espacial Internacional (ISU) e investigador do Centro de Microssistemas Eletromecânicos. Fez a licenciatura e o mestrado em Engenharia Biomédica e, também pela UMinho, o doutoramento em Líderes para as Indústrias Tecnológicas, no âmbito do MIT Portugal. Realizou cursos avançados em Estudos Espaciais e em CubeSat pela ISU, além de períodos de pesquisa na Universidade Técnica de Aachen (Alemanha) e no MIT. Afirma-se na ligação academia-indústria nas áreas de engenharia aeroespacial, instrumentação eletrónica e microssistemas.

Em entrevista ao Jornal UMdicas, Alexandre Ferreira da Silva fala sobre os desafios do cargo, nesta que será a 4.ª fase da parceria entre Portugal — através de academias, empresas, associações e Governo — e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA. Os responsáveis querem dar continuidade ao legado da iniciativa, que tem impulsionado o sistema científico e tecnológico nacional e sido um motor de criação de valor para a economia. O MIT Portugal está sediado no campus de Azurém, em Guimarães.

Como surge a oportunidade/convite para assumir a codireção do MIT Portugal e o que representa para si esta responsabilidade?

A nomeação surge numa altura em que se inicia a fase 4 do Programa MIT Portugal, com um novo modelo de governação para as três parcerias internacionais, e com a saída do anterior diretor, Professor Pedro Arezes, para assumir novas funções institucionais. Há, portanto, todo um contexto que culmina no convite que me foi dirigido para assumir a posição de codiretor. Tendo eu estado ligado ao MIT Portugal ao longo de vários anos, em diferentes fases deste Programa e em diferentes funções, não é segredo que tenho uma ligação quase umbilical ao mesmo. Mas, de forma racional, há uma consciência total da responsabilidade que esta posição acarreta perante as entidades de governação, o MIT, as entidades que tiveram ou venham a ter interação com esta parceria e todos aqueles que, em certa medida, tiveram ou possam vir a ter contacto com o Programa.

Quem é Alexandre Ferreira da Silva? Como chegou à UMinho e como descreve o seu percurso académico e profissional até aqui?

Entrei nesta casa em 2002, como aluno de Engenharia Biomédica. Fiz parte da primeira turma de alunos que ingressou neste curso. Quando estava a terminar o último ano, o MIT Portugal estava a iniciar atividade, e acabei por realizar o meu doutoramento no âmbito desta parceria. Desde então fiquei ligado ao MIT Portugal: primeiro como aluno de doutoramento, mais tarde como docente convidado e, no final, como diretor-executivo. Desliguei-me em 2021 quando integrei o Departamento de Eletrónica Industrial como professor auxiliar de carreira, posição que ocupo atualmente.

Olhando para trás, denoto um padrão curioso de “aluno de teste”, pois acabei por testar o projeto de ensino de Engenharia Biomédica e, depois, o Programa Doutoral em Líderes para as Indústrias Tecnológicas. Ambas as experiências tiveram um papel fundamental na minha formação, especialmente a última, que envolvia aulas em Azurém [Universidade do Minho], no campus Alameda do Instituto Superior Técnico e na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Durante o primeiro ano do doutoramento, passava duas semanas por mês em cada instituição, de forma rotativa. O meu percurso não é o mais convencional, mas tem particularidades interessantes.

O MIT Portugal assinala 20 anos e entra na sua 4.ª fase. Que significado pessoal e institucional atribui a este marco?

Vinte anos significam que já há uma história para contar e um impacto para medir. Pessoalmente, há uma satisfação por ter feito parte desses 20 anos e por ter contribuído, em parte, para eles.

Se considerarmos o MIT Portugal como uma instituição, então ela foi responsável pela formação avançada de vários jovens que hoje têm carreiras de topo. Exemplos disso são a Maria Pereira, atual deputy-CEO da Tissium — conhecemo-nos quando ambos fazíamos o doutoramento e partilhávamos casa em Cambridge — ou, mais recentemente, a Sara Cerqueira, que se encontra a terminar o seu doutoramento aqui na UMinho no âmbito do MIT Portugal, mas que de forma independente conseguiu criar as suas próprias interações com o MIT, sendo atualmente bolseira de investigação no MIT em projetos já fora do contexto desta parceria. E como estes dois exemplos há muitos outros onde se verificam histórias curiosas e se vislumbra como o MIT Portugal teve impacto.

Outros exemplos são na componente da investigação e no desenvolvimento de projetos colaborativos de elevado impacto. Na fase inicial, existiu o Green Island que transformou os Açores num laboratório vivo num projeto conjunto entre equipas portuguesas e o MIT, ou mais recentemente no âmbito dos projetos estratégicos da fase 3, regressámos ao espaço com o lançamento do satélite MH-1, resultado do projeto Aeros, com um consórcio variado de empresas e instituições de ensino superior.

O professor Pedro Arezes, também da Universidade do Minho, liderou o Programa durante uma década. Que aprendizagens dessa liderança considera mais relevantes para esta nova etapa, até porque integrou essa direção executiva?

Foi um período de mudança e talvez o mais transformador para o MIT Portugal até ao momento. Nessa altura estávamos na fase 3. Enquanto a fase 1 e 2 foram muito parecidas e quase que foram uma evolução natural, já a fase 3 implicara uma grande mudança na abordagem do Programa, nos mecanismos de interação e nas próprias equipas. Nesse momento, dá-se uma alteração dos gabinetes de coordenação das várias parcerias (MIT Portugal, CMU Portugal e UTA Portugal), e é quando é estabelecido o gabinete de coordenação do MIT Portugal em Azurém. Na altura, o gabinete apenas tinha dois recursos humanos alocados a ele, eu como Diretor-Executivo e a Catarina Silva como gestora do Programa. Juntamente com o Professor Pedro Arezes, os três trabalhamos de forma muito próxima para montar o gabinete de coordenação, estabelecer a nova visão e dinâmica para o Programa juntamente com os colegas do MIT (que em parte também eram novos) e dar a conhecer os mecanismos de interação (bolsas, projetos exploratórios, projetos estratégicos) para as novas áreas de ação do Programa. Depois, com o tempo, a equipa foi crescendo para dar resposta às várias iniciativas.

Não sendo a fase 4 tão disruptiva como a fase 3, o período em que estive sob a liderança do Professor Pedro Arezes foi um período de forte aprendizagem dos contornos da coordenação das Parcerias, da governação e da interação com o ecossistema que explorou as oportunidades de colaboração. Ao longo destes momentos tive a oportunidade de o acompanhar, de discutir ideias e de definir estratégias com muita proximidade. Tenho certeza de que as lições aprendidas na altura serão relevantes para esta nova etapa.

A figura de codiretor é, de certa forma, uma novidade na gestão destas parcerias. Como antevê a operacionalização desta gestão bipartida?

Por acaso não é uma novidade. Ainda durante a fase 3, enquanto Diretor-Executivo, tive a oportunidade de acompanhar um momento semelhante, quando coexistiram dois diretores, o Professor Pedro Arezes e a Professora Zita Martins do Instituto Superior Técnico. Esta nova etapa comigo e com o Professor João Barreto, da Universidade de Coimbra, será certamente bastante semelhante.

O Programa MIT Portugal tem uma dimensão significativa na área de ação que detém, não apenas na perspetiva geográfica, mas também na perspetiva das áreas que aborda e no seu público-alvo. É por isso importante uma direção mais alargada que permita reflexão, discussão, troca de ideias para garantir um Programa de maior alcance, maior impacto e mais inclusivo. Eu diria que tenho um perfil mais dedicado à componente académica e institucional enquanto o Professor João Barreto apresenta uma excelente componente de inovação e empreendedora. Esta complementaridade só irá beneficiar o Programa e as atividades que viermos a desenvolver.

Qual foi, na sua opinião, o impacto mais significativo destes 20 anos para a Universidade, para o país e para o tecido empresarial?

Já dei alguns exemplos anteriormente, mas de uma forma global foi possivelmente a mudança da abordagem à investigação, de forma como gerimos as nossas equipas de investigação, de como fazemos colaborações nacionais, internacionais e de como nos ligamos às empresas.

Esta nova fase aposta em Chips/Nanotecnologia, Espaço, Inteligência Artificial e Energia. Como foram definidas estas prioridades?

Estas novas áreas de aposta estão alinhadas com as prioridades no contexto europeu e por consequência no contexto nacional. Na verdade, são vistas como áreas de urgência global com interesse de fortalecimento mútuo tanto nacional como no MIT.

No tema dos Chips/Nanotecnologia, há uma orientação para o desenvolvimento de novos materiais, sensores ou abordar processos de fabrico. Na energia, o foco será em temas da descarbonização ou alternativas energéticas. Inteligência Artificial é um tema em elevada discussão em diferentes fóruns, com questões de investigação translacional, confiabilidade ou ética. Finalmente Espaço e Sistemas Terrestres é uma evolução de uma área da fase 3, mas foca-se acima de tudo nas novas oportunidades que o acesso ao Espaço nos permite nos dias de hoje, seja na observação, na modelação dos diferentes sistemas terrestres e sua compreensão.

Que tipo de projetos, infraestruturas ou consórcios serão mobilizados para acelerar inovação e competitividade?

Como já tinha referido anteriormente, procuramos que o MIT Portugal através das suas iniciativas seja o mais inclusivo possível para permitir que diferentes naturezas de entidade possam explorar sinergias através do MIT Portugal.

Eu acredito na necessidade da multidisciplinaridade e interdisciplinaridade para que consiga garantir um desenvolvimento técnico-científico capaz de alcançar um valor-acrescentado. Não gostaríamos que este desenvolvimento se esgotasse em pequenas iniciativas que possamos vir a desenvolver. É por isso importante o foco nas 4 áreas temáticas referidas anteriormente, pois ao tratar-se de prioridades nacionais e europeias há um contexto, e consequentemente podemos ser um contribuidor ativo juntamente com outros atores para dar espaço à maturação de um dado objeto em desenvolvimento.

Ou seja, de forma concreta, respondendo à sua questão, espero que existam propostas de projetos de diferentes naturezas e por diferentes entidades e que o MIT Portugal possa ser um canal relevante para o desenvolvimento das mesmas, e que estejam alinhadas com prioridades nacionais.

Como avalia hoje a articulação entre universidades, empresas e Governo, e o que vai fazer para torná-la ainda mais eficaz?

O MIT Portugal tem um papel em certa medida de agregador ou de mobilizador no contexto das iniciativas que desenvolve. Por inerência das atividades, procuramos uma proximidade às universidades e às empresas. O Governo e os seus órgãos não só são as entidades a quem reportamos, mas também as entidades que nos providenciam muitos dos mecanismos que permitem o desenvolvimento das nossas iniciativas. Todos fazem parte nos nossos stakeholders, e temos com todos uma disponibilidade total.

Que novos instrumentos (incubadoras, programas aceleradores, consórcios público-privados) pretendem reforçar para apoiar a transferência de tecnologia?

É uma excelente questão. Não podendo ainda divulgar as futuras iniciativas que temos intenção de desenvolver e que estamos a montar, podemos adiantar que há uma preocupação em desenvolver atividades dedicadas à inovação e empreendedorismo, possivelmente para diferentes públicos-alvo. A seu tempo, esperamos poder divulgar as mesmas.

Como tem evoluído o modelo de colaboração com o MIT e que oportunidades futuras antevê nessa relação transatlântica?

O modelo de colaboração assenta num conjunto de iniciativas já bem estruturadas e que evoluem de fases anteriores, e focadas na formação avançada em diferentes domínios e na investigação através de projetos. Estes instrumentos manter-se-ão à partida e tentaremos fazer algum ajuste que consideremos relevante até para atualizar esses mecanismos face aos novos desafios ou oportunidades que possam surgir. Mas temos também a intenção de desenvolver novas atividades, que estamos neste momento ainda a estruturar a analisar a sua operacionalização. É nossa intenção, já durante 2026, colocar em prática algumas destas atividades.

O Programa está sediado em Azurém. Que significado tem esta centralidade para a UMinho e para o ecossistema regional?

Há um simbolismo pelo facto de estarmos no campus de Azurém, na cidade de Guimarães, conhecida como o berço na nação. E é a partir desse local que o gabinete de coordenação trabalha com um raio de ação nacional. E incluímos as ilhas, onde, por exemplo temos desenvolvido nos últimos anos uma escola de verão dedicada à robótica marinha, liderada pelo grupo do Professor João Tasso Sousa, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, e que tem decorrido nos Açores. Eu diria que os nossos registos demonstram uma preocupação nesse sentido, de realizar iniciativas em vários locais de Portugal sem centralizar apenas na zona de Guimarães ou na região do Minho, e em colaboração com diferentes entidades ou instituições. O nome do Programa é bastante claro, MIT Portugal.

Há novos projetos estruturantes previstos para reforçar a ligação ao norte e às empresas tecnológicas da região?

O modelo de projetos estruturantes ou estratégicos foi um pilar durante a fase 3, como demonstrei pelo exemplo que dei anteriormente, o do MH-1. É um modelo de elevado potencial e muito interessante, que permite realmente escalar muitos dos desenvolvimentos exploratórios ou abordar desafios de maior dimensão. Certamente iremos analisar a possibilidade de voltarmos a ter esse instrumento.

O seu percurso inclui o lançamento do primeiro PocketQube português e projetos nas áreas do espaço e dos microssistemas. Como colocará essa experiência ao serviço do Programa?

O curioso dessa experiência é que a fiz no âmbito de uma parceria internacional, nesse caso a CMU Portugal. São exemplos das oportunidades e das possibilidades que estes Programas internacionais permitem alcançar. A execução desse projeto permite-me agora ter experiência própria de como os projetos colaborativos de natureza exploratório operam. A missão para o PROMETHEUS-1 era em certa medida “aprender, fazendo”. Na altura referia-me ao lançamento do satélite em si. Mas agora no papel de Diretor-Executivo atual, serve-me de aprendizagem para a coordenação e acompanhamento dos projetos que possamos vir a financiar.

Que papel pode o MIT Portugal desempenhar no reforço da posição internacional de Portugal em setores estratégicos como o aeroespacial, a eletrónica avançada, a IA ou a energia?

Vejo o MIT Portugal como um catalisador, especialmente em áreas onde a nossa experiência ainda é reduzida. A colaboração com grupos de investigação que já trabalham em certas áreas há mais tempo, ou o acesso a um conjunto de infraestruturas muito especializadas, permitem acelerar o desenvolvimento das nossas competências e da nossa capacidade nessas áreas estratégicas, tornando-nos contribuidores ativos. Em outras situações, conseguimos explorar sinergias complementares, porque de um lado há um dado elemento e do outro há outro elemento em falta, e cuja combinação é necessária. O tempo e o esforço que muitas vezes demoramos a conseguir obter o elemento em falta é muitas vezes incomportável ou prejudicial. Ou seja, há interesses mútuos e simbióticos. O MIT Portugal é por isso também um agregador. E esta abordagem aplica-se nas diferentes áreas de interesse. Já demonstramos no passado que foi relevante com alguns dos exemplos anteriores, e estou convicto que iremos demonstrar também no futuro.

Qual considera ser hoje o maior desafio — e a maior oportunidade — do MIT Portugal?

A maior oportunidade é o ecossistema que Portugal apresenta, que é muito interessante e convidativo, e permite à escala de um país proporcionar condições singulares para acolher certas tipologias de projetos. Temos excelentes alunos e investigadores, temos condições geográficas únicas, uma dimensão ótima e um quadro regulamentar com algumas particularidades interessantes na perspetiva da investigação. O MIT Portugal deve explorar estas condições com os parceiros.

Se pudesse definir um legado para esta 4.ª fase, que objetivo gostaria de ver concretizado daqui a cinco anos?

Poderá ser ainda um pouco cedo para prognósticos, enquanto ainda me estou a inteirar do atual figurino do Programa e do novo modelo de governação, mas gostaria de, junto com o meu colega codiretor, o Professor João Barreto, aumentar a área de abrangência das nossas atividades, permitindo que o MIT Portugal tivesse uma presença maior em diferentes áreas. Outro objetivo sobre o qual tenho um pessoal interesse, é conectar a comunidade alumni do Programa, que é um dos bens mais valiosos que dispõe. A comunidade é bastante alargada e distribuída por vários países. São exemplos e histórias de percursos interessantes de ouvir, mas acima de tudo são colegas que tenho a certeza que poderão contribuir construtivamente para o Programa.

Que mensagem gostaria de deixar aos estudantes, investigadores, empresas e entidades públicas que vão integrar ou que vão ser implicadas neste novo ciclo do MIT Portugal?

Teremos atividades e iniciativas dedicadas para cada um deles, e por isso é importante que nos acompanhem nas diferentes plataformas de forma a estarem a par de eventos, calls ou outras oportunidades. E de forma recíproca, temos porta aberta para reunir com diferentes grupos de alunos, investigadores, empresas ou outras entidades que pretendam interagir connosco e explorar as nossas oportunidades e iniciativas.

 

Atualizado a 05-01-2026 17:00