Estudo da UMinho clarifica leitura das tracking polls nas Presidenciais de 2026
GCI ⠿ 12-01-2026 16:00
Matemático Paulo Alexandre Pereira analisou tendências e alerta para leituras precipitadas.
A divulgação diária de resultados de tracking polls nas eleições presidenciais exige uma leitura estatisticamente informada, sob pena de gerar interpretações incorretas na comunicação social e no debate público. Esta é a principal conclusão de um estudo de Paulo Alexandre Pereira, professor do Departamento de Matemática da Escola de Ciências da Universidade do Minho (ECUM), que analisou os primeiros dias da Tracking Poll Pitagórica (TSF/JN/TVI/CNN Portugal).
Segundo o investigador, uma tracking poll não deve ser confundida com uma sondagem diária independente. “Estamos a falar de um instrumento de acompanhamento concebido para atualizar diariamente uma estimativa de intenções de voto com base numa janela móvel de entrevistas, o que significa que, de um dia para o outro, cerca de dois terços da amostra são exatamente os mesmos entrevistados”, referiu.
Por isso, “pequenas variações entre dias consecutivos são frequentemente compatíveis com flutuação amostral e não com mudanças reais nas intenções de voto”: “O valor científico de uma tracking poll não está em produzir ‘um novo resultado’ todos os dias, mas em permitir observar tendências de curto prazo com continuidade”, sublinhou Paulo Alexandre Pereira.
A análise incidiu sobre os dados recolhidos entre 2 e 7 de janeiro, rondando as 608 entrevistas por dia e recorrendo a métodos estatísticos conservadores. “Os valores divulgados já resultam de uma média móvel e, portanto, já estão parcialmente suavizados”, explicou o docente.
Quando o ruído diário é reduzido, os níveis de apoio aos principais candidatos surgem muito próximos, configurando um empate substantivo. “Uma diferença pequena num dia isolado não autoriza conclusões fortes; o que importa é saber se o movimento se repete e persiste”, salientou Paulo Alexandre Pereira. No período analisado, observou-se André Ventura em subida gradual, António José Seguro num patamar elevado e competitivo, Cotrim Figueiredo estável, Gouveia e Melo com perda moderada e Luís Marques Mendes em recuperação gradual.
O estudo da ECUM chama ainda a atenção para a sobreposição das bandas de incerteza. “Falar em ‘ultrapassagens’ com base em diferenças mínimas entre dois dias consecutivos ignora que a maioria das entrevistas é partilhada e conduz a interpretações estatisticamente frágeis”, alertou, acrescentando que só quando a janela móvel substitui a maior parte da amostra faz sentido falar em tendências consolidadas. As tracking polls, concluiu, “são ferramentas úteis para acompanhar a dinâmica da campanha, mas não foram desenhadas para produzir ‘notícias diárias’”.
Atualizado a 12-01-2026 16:00
