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Três gerações, dois sofás e uma conversa sobre estudantes

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Três gerações, dois sofás e uma conversa sobre estudantes

Bruno Lemos ⠿ 24-03-2026 16:00

Ainda não havia câmaras ligadas quando Luís Guedes entrou na sede da Associação Académica da Universidade do Minho, no Campus de Azurém. Chegou primeiro, como convém a quem recebe. A sala estava tranquila, com o silêncio próprio dos minutos que antecedem uma conversa que ainda não começou, mas que já se adivinha.

O motivo do encontro era o Dia Nacional do Estudante. O reitor da Universidade do Minho tinha lançado o convite para uma conversa entre gerações: Alberto Martins, presidente da Associação Académica de Coimbra na crise académica de 1969, e Luís Guedes, atual presidente da AAUMinho. O passado e o presente da representação estudantil, acomodados em dois sofás na sede da associação académica.

Pouco depois da chegada do anfitrião, a porta voltou a abrir-se. Alberto Martins entrou com a naturalidade de quem regressa a um lugar que lhe pertence de alguma forma. Natural de Guimarães, voltava à cidade natal para esta conversa. O cumprimento entre os dois foi imediato e caloroso — não era um primeiro encontro. Já se tinham cruzado antes, quando Alberto Martins presidiu ao Conselho Geral da Universidade do Minho.

Enquanto a equipa técnica preparava câmaras e microfones, a conversa começou a desenrolar-se sem guião. Guimarães surgiu naturalmente no diálogo. Pedro Arezes, que chegaria pouco depois, é barcelense de nascimento, mas vimaranense por escolha há mais de trinta anos. Quando entrou na sala, confessou com humor aquilo que chamou o seu “pecado original”: não ser vitoriano.

Alberto Martins respondeu com outra identidade, desta vez estudantil:
- Eu sou da Académica.

A conversa desviou-se momentaneamente para o edifício onde estavam. Impressionado com as condições da sede da associação académica, Alberto Martins perguntou a Luís Guedes que espaço era aquele.

- Era um antigo magistério - explicou o presidente da AAUMinho. - Foi cedido à universidade e depois à associação académica.

Havia ainda tempo para pequenos acertos antes da gravação começar. O reitor fez uma confissão: não tinha partilhado previamente o guião da conversa com os convidados. Alberto Martins e Luís Guedes preferiam assim. Seria mais espontâneo, mais verdadeiro.

- Mas se não conseguir responder a alguma coisa, não me responsabilizo - atirou Alberto Martins, entre risos.

Definiram apenas uma regra simples: tratar-se-iam todos pelo primeiro nome.

Quando as câmaras finalmente se ligaram, a conversa recuou a 1969. À crise académica, aos dias em que as universidades portuguesas foram palco de contestação e coragem. Mas não ficou apenas na memória. A primeira pergunta cruzava tempos: como teria sido aquela mobilização se já existissem redes sociais? E hoje, em 2026, o que seria pior? Não ter a palavra ou não ter internet?

Entre memórias, reflexões e histórias menos conhecidas, a conversa seguiu num tom leve. Alberto Martins partilhou até o que teria dito naquele 17 de abril de 1969 se lhe tivesse sido dada a palavra.

A certa altura, Luís Guedes deixou escapar uma observação que dizia muito sobre a distância entre tempos:

- Hoje posso estar aqui num sofá, na sede da Associação Académica, a conversar com o Reitor e com uma grande figura histórica… ainda que com algum nervosismo.

Alberto Martins perguntou se o nervosismo era pela presença do reitor. Luís Guedes respondeu com humor que o peso estava sobretudo em ter ao lado o protagonista da crise académica de 1969. E acrescentou, em tom de brincadeira, que estava convicto de que este reitor não o denunciaria à PIDE se ela ainda existisse.

Já perto do final, Pedro Arezes pediu a Alberto Martins que comentasse a sua passagem mais recente pelo Conselho Geral da Universidade do Minho. A resposta foi ponderada. Disse ter encontrado uma universidade “arejada e desempoeirada”, mas confessou também alguma preocupação com uma cultura mais individualista nos tempos atuais.

Para ele, um dos segredos da força da crise académica de 1969 foi precisamente a solidariedade entre estudantes. Recordou os colegas que o acompanharam na inauguração do Edifício das Matemáticas, os que foram à prisão exigir a sua libertação, os que gritavam que ou havia exames para todos… ou não havia exames para ninguém.

Quando as câmaras se desligaram, a conversa continuou ainda por alguns momentos. Entre os intervenientes e a meia dúzia de privilegiados que assistiram à gravação, a sensação era de satisfação tranquila. Havia também uma curiosidade partilhada: ver como ficaria, no final, o resultado daquela conversa gravada.

O reitor gracejou:

- O pior que nos podiam dizer agora é que afinal não tinha ficado gravado.

A equipa técnica tranquilizou de imediato:

- Ficou tudo bem.

Alberto Martins comentou então que aproveitaria a passagem por Guimarães para almoçar com a irmã. Antes de sair, pediu a Pedro Arezes e a Luís Guedes que o acompanhassem até ao carro, queria oferecer-lhes um livro: “Peço a Palavra - Coimbra 1969” lançado pelo próprio em 2019. Seguiram-se novos cumprimentos, novamente calorosos.

Ficava no ar uma nostalgia serena, a de quem revisitou um dos momentos mais marcantes do século XX português, e uma esperança discreta de que as gerações atuais saibam responder aos desafios do presente com a mesma coragem.

Porque, como Alberto Martins disse a certa altura da conversa, numa frase que ficou a ecoar na sala:

“O passado está cheio de futuros que ficaram por cumprir.”

Crónica escrita pelo Pró-Reitor para a Participação Universitária e Ligação ao Território, Carlos Videira, sobre os bastidores da gravação do conteúdo do Dia Nacional do Estudante

Atualizado a 24-03-2026 17:00